Por Pr.Marcos Paulo Ferreira

A humanidade vive inquieta com o futuro. De um modo geral, tememos perder o emprego, não ter dinheiro para pagar as contas, ficar doente, morrer, ser traído, cair os cabelos, ter nossos planos arruinados. Mas de onde vem essa insegurança toda?

Creio que a fonte está em um temor ainda maior escondido nos porões de nossa alma. Antes de ir para a resposta, deixe-me ilustrar com a história de Victor Hugo, narrada em Os miseráveis. Na narrativa, Jean Valjean, livre da cadeia há quatro dias, não encontra quem o acolha. Seu passado o persegue.

Cansado, tremendo e faminto, precisa de um lugar para descansar. Busca em todos os lugares, mas ninguém o recebe. Até os cachorros o enxotam. Desesperado, se depara com uma mulher que indica a casa do bispo D.Bienvenu como única possibilidade de acolhimento.

Ao ser atendido pelo bispo, Jean não esconde a vida pregressa. Mesmo assim, D. Bienvenu o recebe, convida para dividir a ceia e ainda oferece bons lençóis para a noite de sono. O ex-presidiário, entretanto, ainda padece os efeitos de sua história. Ele tem um estigma: é um sentenciado.

Jean age como um animal encurralado e agredido, que procura se defender. Resolve então fugir da casa do bispo. No silêncio da madrugada, antes de sair, rouba os talheres de prata. Contudo, não vai muito longe. Os guardas o pegam, reconhecem as insígnias do bispo na prataria e o conduzem de volta à casa que o acolheu.

Surpreendentemente, D. Bienvenu não só o perdoa, mas também o salva. Diante da prata roubada, o desconcerta com uma pergunta e uma oferta: Estimo tornar a vê-lo. Mas eu não lhe dei também os castiçais? São de prata como os talheres e poderão render-lhe bem duzentos francos. Por que não os levou também?

Vivemos como Jean, de Os miseráveis, perambulando de um lado para o outro, estigmatizados e com um medo muito maior dentro da nossa alma. Medo esse que atrai todas as outras inseguranças da nossa vida.

O medo do juízo de Deus. Mas a Palavra de Deus nos diz que fomos acolhidos primeiro pelo amor e pela graça e que esse perfeito amor lança fora o medo (I João 4.14). Pois o amor consiste “não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou e enviou Jesus para pagar os nossos pecados” (I João 4.10).

Assim como Jean foi esmagado pelo amor, pelo perdão e pela graça, e ele nunca mais foi a mesma pessoa, você pode entregar seu passado, presente e futuro para Jesus. Deixar de ser um fugitivo que, na ansiedade pelo amanhã, bate de porta em porta, com medo do futuro, e se tornar um escravo da bondade, e da graça, alguém que vive o amor hoje, pois “nós amamos porque Ele nos amou primeiro” (I João 4.19).