Por Marcos Paulo Ferreira

Quando eu era criança gostava muito de circo. Sempre que havia um perto de minha casa lá estava eu. Eu ia escondido de meus pais e, por não ter dinheiro, quando não “furava a lona” para entrar furtivamente, fazia amizade com o pessoal e por ajudá-los em pequenas tarefas ganhava alguns ingressos.

Lembro de certa vez que o circo Áurea chegou na região do Pinheirinho e do Sítio Cercado e ficou bastante tempo por lá. Fiz amizade com todos os que trabalhavam no circo, principalmente com o domador de animais (naquela época podia ter animais nos circos).

Certo dia, chegaram dois leões novinhos em jaulas separadas e logo o domador reuniu todos os funcionários do circo, apontou para um deles e disse: “Esse não! Por favor, não cheguem nem perto deste leão, todos os outros são como cordeirinhos, mas esse é indomável”.

Aquilo me marcou, pois eu vivia perto de todos os outros animais, todos os outros eram mansos, mas aquele pequeno leãozinho era perigoso e vivia sempre enclausurado por não se submeter ao domador.

Quando o Senhor Jesus diz que os mansos, que as pessoas de coração humilde herdariam a terra (Mateus 5.5), Ele fala de um comportamento que entra em contradição com a natureza humana pecadora e com o sistema do mundo em que vivemos. Nossa sociedade prega que o “mundo é dos espertos” e que para sobreviver nesse mundo você precisa de um pouco de malandragem.

Diz que “não se pode levar desaforo para casa” e que é necessário “brigar por seus direitos”. Todo esse discurso do mundo e essa estrutura social e econômica baseada na competição são somente reflexos de nossa natureza pecadora, da semente do pecado dentro de nós que nos leva à rebelião contra Deus e, conseqüentemente, à violência uns contra os outros.

Quando vencemos essa semente de rebeldia, aceitando o amor de Deus que morreu por nós em uma Cruz, e nos submetemos à vontade e autoridade dEle, nos tornamos mansos e recebemos a promessa de “herdar a terra”.

O que precisamos, portanto, é fazer uma escolha consciente de sermos guiados pelo Senhor, de sermos conduzidos por Ele e até de colocarmos nossos direitos debaixo do controle dEle.

Quando optamos por aceitar o perdão de Deus e irmos além do ressentimento, perdoando àqueles que nos ofenderam, assumimos uma posição de mansidão. Tem um filme chamado “Bravura indômita” que mostra a história de uma jovem de 14 anos que, após perder seu pai cruelmente assassinado, convence um policial federal a procurar o assassino e saem por florestas e vales para caçá-lo. Não querendo adiantar o resultado do filme, se ela consegue ou não se vingar, posso dizer que essa jovem que passou a vida em busca de justiça acaba tendo seu braço mutilado, resultado do ódio que alimentou.

Mansidão é o contrário desse desejo de vingança e justiça pelas próprias mãos. Por isso, eu trocaria o título desse filme por “Vingança indômita”, pois os fracos revidam, se vingam e vivem em função de destruir o outro, enquanto os bravos dão a “outra face”, “caminham a segunda milha” e se enchem de coragem para atravessar florestas e vales e levarem o perdão e a reconciliação. Esse é o coração de um leão manso como um cordeiro.

Mansidão é o abandono voluntário do exercício do poder, assim como Jesus fez: “que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens.

E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!” Filipenses 2.6-8.

Isso, porém, só ocorre quando temos o nosso “eu” domado e amansado pelo Espírito Santo de Deus, por isso a bravura nunca é indômita, mas submissa e obediente à vontade do Pai.

Infelizmente, tem muita gente ficando enjaulada ou perdendo um braço por causa da falta de mansidão, pois são indomáveis à vontade de Deus.

Diante disso, Jesus nos chama a aprender com Ele, quando diz: “Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas.” Mateus 11:29.

Somente se nos deixarmos domar pelo Senhor, aprendendo dEle a agir com mansidão e humildade, encontraremos descanso, do contrário passaremos a vida enjaulados nos achando fortes e bravos.