Por L. Roberto Silvado

Será que o mais importante é garantir um lugar no céu para as pessoas que vivem na terra? Será que devemos concentrar nossos esforços para garantir pelo menos um pouco de céu para aqueles que ainda estão vivendo na terra? Como cumprir o IDE de Jesus e cumprir de fato a Grande Comissão em um mundo com tantas necessidades?

John Stott em seu livro “Missão cristã no mundo moderno” nos ajuda a compreender com mais clareza como a fé cristã deve ser expressa num mundo tão cheio de sofrimentos e injustiças, sem perder de vista a dimensão temporal da vida deste lado da morte.

É imprescindível que o discípulo de Cristo entenda que a missão cristã é uma missão “holística”. Deus vê o ser humano como um todo e não como um aglomerado de partes e por isto deseja abençoá-lo em todas as dimensões da sua existência.

A tensão entre falar do amor de Deus e ajudar materialmente as pessoas sempre existiu na igreja cristã. Existem pelo menos três maneiras de perceber o relacionamento entre o evangelismo e a ação social.

Alguns percebem ação social como ferramenta do evangelismo.
Evangelizar e fazer novos convertidos é o fim da ação social. A igreja cristã não deve continuar fazendo ação social, se não conseguir conversões por Cristo.

Gandhi reage a esta compreensão em 1931 com a seguinte declaração: “Eu afirmo que evangelizar sob a capa de ação humanitária não é saudável. Por que eu deveria mudar de religião simplesmente por ter sido atendido por um médico cristão?”

O grande perigo deste tipo de pensamento é nutrir um relacionamento hipócrita com a comunidade, pois existe sempre uma agenda oculta por trás de toda a nossa filantropia.

Outros percebem a ação social como o sacramento do evangelismo, ou seja, ela faz com que a mensagem cristã seja visível e significativa.

Para estes a ação social não é um instrumento para evangelizar, mas a manifestação do evangelismo, ou do evangelho que está sendo proclamado.

  1. Herman Bavinck em seu livro “Uma introdução à ciência de missões” faz a seguinte afirmação: “Medicina e educação são meios mais do que legítimos e necessários de criar uma oportunidade para pregar o evangelho. Se estes serviços forem motivados pelo amor e compaixão de Deus, então eles cessarão de ser simples preparação e transformar-se-ão em pregação verdadeira.” Perigosamente tem se desenvolvido a partir deste entendimento a compreensão de que só tenho o direito de evangelizar, se já fiz muita filantropia e, para alguns, a ação social torna-se a substituta da pregação falada do evangelho.

John Stott com muita sabedoria resgata o princípio bíblico que vê a ação social como companheira do evangelismo. Os dois são autônomos, mas pertencem um ao outro, pois são interdependentes.

Estão lado a lado no cumprimento da missão cristã, pois esta missão chega ao homem e abençoa-o na sua integralidade.

Nenhum dos dois é instrumento para o outro ou manifestação do outro – ambos são expressões do amor de Deus. Jesus sempre anunciou as boas novas do Reino e fez sinais visíveis da chegada do Reino sem deixar de ensinar os valores do Reino de Deus.

Por isto, libertos de qualquer sentimento de culpa ou constrangimento podemos falar do amor de Deus sem ajudar materialmente e atender às necessidades materiais, promovendo transformação social, sem necessariamente precisar testemunhar conversões a Cristo.

SOMOS LIVRES EM CRISTO PARA CUMPRIR A MISSÃO CRISTÃ – SER SAL DA TERRA E LUZ DO MUNDO.

Viva a plenitude da sua fé, plante as sementes do amor de Deus e espere o germinar dessas sementes pela ação do próprio Deus no Seu tempo e para a Sua glória.