Texto por: *Frans Leonard Schalkwijk.
Fides Reformata XV, Nº 2 (2010), páginas 109-111

Resgatando a verdade histórica sobre o massacre em Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte em 1645.

FORAM DECLARADOS “SANTOS” PELA IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA NA MANHÃ DESTE DOMINGO (15/10/2017), no Vaticano, os 30 mártires de Cunhaú e Uruaçu – massacrados em terras potiguares no ano de 1645. A cerimônia de canonização foi presidida pelo Papa Francisco, contou com 450 concelebrantes e foi acompanhada por milhares de pessoas, que lotaram a Praça de São Pedro.

Acrescento, a seguir, um texto escrito a um tempo atrás que resgata a verdade histórica sobre este evento ocorrido em 1645, em terras potiguares.

“No ano 2000, os jornais noticiaram a beatificação dos mártires de Cunhaú (1645), no Rio Grande do Norte, pelo Papa João Paulo II. A matança ocorreu durante as primeiras semanas do levante português contra a ocupação flamenga (1630-1654).

Uma das reportagens afirmou que essas horrendas barbaridades foram cometidas por ordem do governo holandês no Recife e com a cooperação de um pastor “calvinista”. Sem querer diminuir a monstruosidade do trágico acontecimento, convém lembrar pelo menos três fatos do contexto histórico daqueles dias de guerra que marcaram o começo do fim da ocupação holandesa do Nordeste.

Em primeiro lugar, cumpre observar que não foi o governo holandês que ordenou a chacina. O que ocorreu foi uma vingança por parte dos indígenas em reação às notícias que corriam sobre as crueldades dos portugueses, ajudados por uma tribo selvagem da Bahia. Desde o início da revolta (13-06-1645), cada vez ficava mais claro que, onde quer que os portugueses restabeleciam seu poder, uma morte terrível esperava seus adversários, especialmente os índios.

Consequentemente, os “brasilianos” (como eram chamados os índios tupis) refugiaram-se nas proximidades das fortificações holandesas, consideradas inexpugnáveis. Outros decidiram evitar o desastre aparentemente inevitável e pegaram em armas. Foi isto que aconteceu no Rio Grande do Norte, em Cunhaú. No Rio Grande, a população indígena consistia em grande parte de índios antropófagos (tapuias), sob a liderança do seu cacique Nhanduí. Para os holandeses, os tapuias significavam um bando de aliados um tanto inconstantes, pois era um povo muito independente, que não aceitava ordens de ninguém, mas decidia por si o que era melhor para sua tribo.

Um tal de Jacob Rabe, casado com uma índia, servia como ligação entre eles e o governo holandês.Entre os indígenas do extremo Nordeste em geral existia um grande ódio contra os portugueses, sem dúvida pela lembrança dos acontecimentos anteriores à chegada dos holandeses, que eram considerados como os libertadores da opressão lusa. E por várias vezes esses índios quiseram aproveitar-se da situação de derrota dos lusos, para vingar-se deles. Assim, em 1637, depois de Maurício de Nassau conquistar o Ceará, os índios procuraram matar todos os portugueses da região, que foram protegidos pelos holandeses por meio das armas.

A mesma coisa aconteceu no Rio Grande do Norte, em 1645. Os tapuias sentiram que, com o início da revolta contra os holandeses, havia chegado a hora da verdade.

Em segundo lugar, de fato o nome de um pastor protestante está ligado a esse episódio. Porém, de modo exatamente contrário daquele que se supõe, porquanto não foi ele quem orientou a chacina, antes foi enviado pelo governo para refrear a selvageria dos silvícolas. Quando, no dia 25 de julho, o governo holandês no Recife soube dos terríveis acontecimentos do Rio Grande do Norte, despachou o Rev. Jodocus Stetten, pastor “calvinista” alemão, capelão do exército, com o capitão Willem Lamberts e sua tropa armada “para refrear os tapuias e trazê-los para (o Recife), a fim de poupar o país e os moradores (portugueses)”.

Os índios, porém, ficaram enfurecidos com os holandeses, não entendendo como estes podiam defender seus inimigos mortais, e até romperam a frágil aliança com os batavos. Antes de regressar para o sertão do Rio Grande, fizeram ainda outra incursão vingadora contra os portugueses, desta vez na Paraíba.

Em terceiro lugar, é importante lembrar o fim do algoz-mor de Cunhaú, Jacob Rabe. Alguns meses depois do massacre, esse funcionário da Companhia das Índias Ocidentais, que havia recebido o pastor Jodocus de pistola em punho, foi morto por ordem do próprio governador da capitania do Rio Grande do Norte, Joris Garstman. O capitão Joris era casado com uma senhora portuguesa que havia perdido muitos parentes em Cunhaú.

Esses três fatos complementares não diminuem em nada o sofrimento dessas vidas inocentes esmagadas entre as pedras de moinho de uma luta armada. Porém, talvez possam eliminar em parte o veneno da história, por nos permitirem entender melhor o contexto daqueles dias cheios de angústia para ambos os lados.

Escrever história objetivamente é muito difícil, mais ainda quando se trata de um caso controvertido como este, com muitos pormenores desconhecidos. Mas afirmar, como foi feito por certos porta-vozes, que as barbaridades de Cunhaú foram perpetradas a mando do próprio governo holandês, e ainda por cima orientadas por um pastor evangélico, simplesmente não corresponde à verdade.

Convém distinguir os fatos e a interpretação dos fatos. O que não atenua, antes aumenta a nossa ansiosa expectativa do dia em que o Senhor enxugará todas as lágrimas, inclusive as de Cunhaú (Apocalipse 7.17).”

 

*Francisco Schalkwijk: ex-missionário no Brasil, é ministro da Igreja Reformada Holandesa, com mestrado no Calvin Theological Seminary, nos EUA, e doutorado em história na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. É autor do livro Igreja e Estado no Brasil Holandês (1986).